17/04/2017

Da memória

Ceifeiras na Lezíria
Da memória que se esquece ou da história que se apaga, surgem vozes que reclamam um regresso ao passado.


«Mas a ceifa corre lenta. Dolorosa e lenta.
E os capatazes bramam.
- Eh, gente!... Vá de animar essas mãos, que isto assim vai de enterro. Porrada pequena!...
- Eh, Ti Maria do Rosário!...
Aquela velha ficara para trás a cortar o espaço com a foice, e não via nem ouvia.
Imaginava que nunca cortara arroz em toda a sua vida com mais frenesi - nem nos seus tempos de moça.
O capataz saltou ao canteiro e sacudiu-a. Ela volveu os olhos e o Manel Boa-Fé sentiu-lhe o bafo quente da boca.
- Então, Ti Maria do Rosário?!...
-Hum?!...
- Sente-se doente?!... Vá um quartel para o barracão...
O corpo da velha sacode-se num estremecimento de pânico quando o capataz lhe fala em descansar.
Nem para ela nem para os companheiros a ceifa pode parar - a ceifa é o pão.
- Eu, homem?!...
- Pois!... Ficou-se cá atrás... Ainda consegue andar?
A velha vê os camaradas lá mais adiante, ora voltados à seara, ora voltados à resteva, naqueles movimentos que à distância parecem absurdos.
O cérebro diz-lhe que deve ir para juntos deles, e depressa, mas as pernas já não obedecem ao seu mando. O capataz segura-lhe os braços magros e tira-lhe a foice.
- Isso não, Manel!... Isso não!... - clama a Ti Maria do Rosário num desespero.
O corpo treme-lhe, os olhos gotejam. Levanta as mãos numa súplica, não percebe o que faz e depois luta com o homem, desesperada.
- Ó Manel!... A foice... dá-me a foice!...
A ceifa não pode parar - a ceifa é o pão.
Os companheiros continuam lá à frente, cada vez mais longe, a derrubar espigas e a amontoar gavelas.
- Auga!... Auga!...
De ceifeiro em ceifeiro, os três gaibéus oferecem água salobra e requentada que não mata a sede. Mas eles deixam-na escorrer pelo queixo e a água ensopa-lhes a camisa suada.
A figura da Ti Maria do Rosário, dobrada e trémula, torna-lhes mais penoso o trabalho. Cada um conhece nela o futuro que lhes baterá à porta, um dia. O futuro atabafa-lhes o peito. mais do que o ar ardente que queima os pulmões.
- Ó Manel... A foice... Dá-me a foice!...»

Alves Redol, em Gaibéus (1939), fez aquilo que está ao alcance de poucos: escreveu, nas palavras do próprio, «um romance antiassunto», um «documentário humano», sem nunca deixar de relatar a realidade, onde domina o «trabalho produtivo, a exploração descarnada do homem pelo homem, tomados os seus aspectos mais crus, na lâmina viva do dia-a-dia».
Hoje, numa época em que sistematicamente se misturam a ficção e a história criando uma névoa que torna difícil destrinçar a realidade da ficção, onde não se procura distinguir a ilusão do facto, importa não esquecer o passado, nem que seja apenas para evitar os mesmos erros no futuro.

09/04/2017

Alves Redol

Destaca-se em Portugal, frequentemente, a existência, passada e presente, de grandes autores literários. De grandes escritores. Enchemos o peito por ter, nessa área, um autor distinguido com um prémio Nobel. Muitas vezes ficamos embebecidos com ditos "escritores" de citações em redes sociais ou de livros cheios de nada. A moda, cada vez mais, dita o que lemos.
Alves Redol, fonte: Instituto Camões



... e são demasiadas as vezes que ignoramos os melhores.

«Lá que tu sejas burro, é uma coisa; que o Zé seja uma parelha de bestas é outra. Agora que vocês me obriguem a ser vosso parente, é que já não me parece certo.»
Alves Redol in "A Barca dos Sete Lemes"


19/03/2017

Metaskills

Livro Metaskills

«... Many of our policymakers believe if we just double down on testing standards and push harder on STEM subjects - science, technology, engeneering, mathematics - we'll revive the economy and compete better with countries that are taking our jobs. This is not a strategic direction for any developed country. The world doesn't want human robots. It wants creative people with exceptional imagination and vision - and standardized testing won't get us there.»

Marty Neumeier, in "Metaskills - five talents for the robotic age"

07/01/2017

Mário Soares 1924-2017

«- Para terminar, permita que lhe faça uma pergunta de ordem pessoal. O Dr. Mário Soares é conhecido, desde estudante, como oposicionista. Nunca ocultou as suas ideias e isso tem-lhe acarretado alguns dissabores. Antes de deportado esteve preso várias vezes. Essa experiência dolorosa não lhe trouxe ressentimento, uma certa amargura à vida? Por outras palavras: acha que valeu a pena?

- Sem sombra de dúvida! O problema, de resto, nunca se me pôs nesses termos. A minha actuação política oposicionista, que se vem exercendo há cerca de vinte e cinco anos - sempre na legalidade, embora sujeita às vicissitudes conhecidas! -  resultou de imperativos morais ou, se quiser, de consciência. Sendo psicologicamente como sou, não poderia ter agido de outra forma. As prisões e a deportação considero-as como uma espécie de acidentes de viação. Foram muito desagradáveis, claramente, mas passaram sem deixar marcas visíveis. Aliás devo dizer, em abono da verdade, que foram muito menos graves do que os que sofreram - e sofrem! - tantos outros portugueses, altos exemplos cívicos, pelo desinteresse pessoal, pelo idealismo, pelo espírito de patriótica abnegação! Quanto a ressentimento, não sinto nenhum - em relação a ninguém. Para mim, o que conta é o presente e, principalmente, o futuro. O passado só interessa como matéria de experiência humana e de reflexão. Ora, nesse aspecto, o que lhe posso dizer é que a minha vida não tem sido monótona. Não me sinto, pois, com razões especiais de queixa em relação à vida - antes pelo contrário!»

in "Escritos Políticos", 1969

06/10/2016

Vista curta

Não era preciso o CDS-PP escarrapachar no meio da Av. da República um enorme cartaz a fazer a ligação das (inúmeras) obras na cidade de Lisboa ao período de vivência democrática em que, em breve, as cidades mergulharão: as eleições autárquicas.
Bastaria andar nas ruas, falar com as pessoas (as que moram e as que não moram em Lisboa) para perceber que essa ideia está mais que enraizada.
A Câmara Municipal de Lisboa decidiu transformar a cidade num estaleiro de obras. Até as vias que poderiam ser alternativas às que se encontram em transformação (em estrangulamento rodoviário, melhor dizendo) não escaparam. São para criar "corredores verdes" dizem. Bendita irregularidade encontrada no concurso de transformação da chamada "segunda circular" que evitou que o caos da cidade se transformasse no inferno.

Reconhecendo algum papel positivo na economia (nomeadamente no sector da construção), pode dizer-se que a avidez na transformação de Lisboa foi tanta que, em algumas freguesias, as obras que seguiram os planos da CML vão ter que ser agora destruídas, em parte, para fazer respeitar os planos anteriormente delineados pelas Juntas de Freguesia e que, inclusivamente, já haviam sido aprovados. Na origem desta situação estarão transformações alegadamente levadas a cabo de forma cega pela CML, seguindo o boneco de algum arquitecto paisagista que, digo eu, nem deve conhecer bem a zona, que dificultam, principalmente, a passagem de veículos essenciais à vida da cidade: carros de recolha de lixo e até mesmo carros de bombeiros, se necessários.
Num local onde o estacionamento de moradores (eleitores!) já era bastante complicado, encontram-se agora largos passeios (venham de lá essas esplanadas!) e o espaço para estacionamento reduziu, sensivelmente, para 2 terços.

Mas vamos continuar a acreditar que Lisboa é uma cidade que se quer virar para o futuro e para o turismo. Uma cidade de bem com o ambiente. Ambiente que beneficiará, com certeza, com a redução das emissões de dióxido de carbono. E essa redução ocorrerá porque se criam as condições necessárias para reduzir o número de viaturas na cidade: taxas para veículos antigos; parquímetros a nascer como se fossem cogumelos; vias de circulação rodoviária que reduzem para cerca de metade...
Mas toda esta estratégia da cidade poderia funcionar, e todos os corredores verdes, pedonais e ciclovias que estão a ser construídos poderiam se utilizados, se:

  • existisse uma verdadeira rede de transportes públicos - são inacreditáveis os tempos de espera entre autocarros (chega às meias horas) e entre carruagens do 'metro' de Lisboa (muitas vezes mais de 10 minutos), constantes "perturbações" (todos os dias!) na circulação do 'metro' de Lisboa, pessoas amontoadas em autocarros e carruagens do 'metro' (tanto nas linhas com 6 carruagens como nas linhas que só colocam 3 carruagens), isto quando conseguem entrar e não são obrigadas a esperar pelo próximo autocarro ou 'metro';
  • para quem não mora em Lisboa, existissem espaços para estacionamento alargados à entrada da cidade com ligação à pseudo-rede de transportes públicos;
  • Lisboa não fosse cada vez mais uma cidade de "trabalho" e menos de "pessoas" - vejam a cidade aos fins-de-semana e avaliem a densidade populacional;
  • Lisboa não fosse cada vez mais uma cidade de turistas e menos de moradores.

Mas mesmo para uma cidade que se diz que quer estar virada para o turismo, parece-me bastante irónico que não exista uma única indicação em inglês nas estações do 'metro' de Lisboa (nem sequer aquela que é a mais procurada pelos turistas: EXIT) ou nas paragens dos autocarros - algo impensável nas capitais europeias!

Não deixa de ser também irónico desta cidade que se diz virada para o turismo, obrigar há meses (quase um ano!!) os seu visitantes a subir e descer escadas em algumas estações do metropolitano com malas "às costas" porque as suas escadas mecânicas se encontram paradas (algumas vezes nos dois sentidos) em resultado de avaria - e neste ponto vou esquecer que este meio de transporte também é utilizado por pessoas com mobilidade reduzida e fingir que o problema é só para os turistas! Vou também esquecer que já vi pessoas idosas feridas, no chão, em resultado de quedas nas longas escadas que foram obrigadas a descer!

Termino como comecei: não era preciso algumas forças políticas fazerem a ligação entre obras e eleições. Bastaria sair à rua e conversar com as pessoas, com quem mora em Lisboa e com quem lá trabalha, para perceber que é com base no impacto que essas obras estão a ter que o julgamento será feito. E pelo que ouço, não é positivo.
Seria uma coisa simples e, muito provavelmente, poderia evitar algumas surpresas futuras.

Também na política não pode haver vistas curtas.


03/07/2016

24/06/2016

23 de Junho de 2016, uma data para a história


... da União Europeia, da Europa, do Mundo.


«- Quando o Telefone Toca boa noite. Qual é frase?
- A frase é "Com uma UE como esta, o ambiente já não é de festa".
- Está correcta, e o que é que vamos ouvir?
- Queria ouvir a "Um Grande, Grande Amor " do José Cid, para dedicar à União Europeia com um grande beijinho do Reino Unido!»


 


Os resultados do referendo no Reino (de)Unido podem ser consultados aqui: http://www.theguardian.com/politics/ng-interactive/2016/jun/23/eu-referendum-live-results-and-analysis

03/06/2016

Livro: A falácia do empreendedorismo

Apesar de Adriano Campos e José Soeiro, os autores deste livro, se apresentarem como sociólogos, e académicos (o primeiro doutorando e o segundo doutorado), a julgar pelo título poderíamos entender, como leitores, que este livro se trata de um trabalho de economia dada a assumpção desta disciplina (1) com a palavra da moda: "empreendedorismo". Na verdade, entendo, trata-se de um escrito político e marcadamente ideológico (neste caso à esquerda). E pode assumir-se essa marca ideológica porque o "empreendedorismo" é também ele um movimento (expressão minha) ideológico (neste caso, visto como um movimento liberal, à direita). Ele tem impacto social tremendo, seja ao nível da inclusão, da educação, das relações laborais e financeiras.

Mas independentemente da carga ideológica que este trabalho possa acarretar para quem o lê (mais ou menos acentuada, dependendo da posição em que o leitor se situe no espectro político), ele cumpre o seu objectivo primário: expor alguns dos mitos ligados ao empreendedorismo e expor alguns dos seus efeitos nefastos.

N'«A falácia do empreendedorismo» é possível encontrar uma clara relação desta visão liberal, assumindo o risco da expressão, e da sua evangelização como solução para muitos dos problemas sociais, como o desemprego, ou como veículo para alcançar níveis de bem ou estatuto social superiores, com:

  • a perda das relações laborais e deterioração das condições de trabalho (precariedade);
  • a evolução (aumento) do desemprego, a perca de direitos e protecção social, e avesso à protecção laboral;
  • a discriminação no acesso a incentivos e apoios ao "empreendedorismo" - nomeadamente o caso português onde esta discriminação é feita ao nível académico e etário;
  • a diferenciação (pela negativa) e discriminação na capacidade de acesso a fontes de financiamento para ideias inovadoras;
  • a durabilidade dos projectos resultantes destas ideias (quando financiadas);
  • a visão individualista e egocêntrica implícita ao movimento "empreendedor";
... entre outras.


Mas para além destas relações que o livro tenta evidenciar, e que ao leitor mais atento possa parecer como uma inversão de toda uma lógica evolutiva e construída durante séculos (e vejam-se, por exemplo, os paralelismos que se podem, eventualmente, estabelecer entre o tão aclamado "empreendedorismo" do século XXI e aquele que foi considerado o "empreendedorismo" proporcionado pela Revolução Industrial com início no século XVIII), podem ainda encontrar-se alguns paradoxos entre a realidade e a ilusão do "empreendedorismo".

No momento em que começam a surgir vozes que defendem que não são os melhores alunos que têm as ideias mais inovadoras e passíveis de maior sucesso, estabelecem-se critérios de acesso a apoios e incentivos que passam pelos níveis académicos dos putativos "empreendedores"?

Como encarar a visão do movimento "empreendedor" como a solução para as crises (financeiras e sociais, maioritariamente provocadas pela liberalização e desregulação dos mercados e das relações) em que mergulharam (e por lá permanecem mergulhados) os países e sociedades consideradas mais desenvolvidas quando é nos países ou sociedade menos desenvolvidas que encontramos a proliferação de "empreendedores" e trabalhadores por conta própria e nas quais não se perspectiva, com isso, um fortalecimento das relações e protecção laboral ou social, nem sequer um aumento do bem-estar e desenvolvimento (diferente de "crescimento") económico? (2)

E estas são só algumas das perguntas que, ao ler este livro, um leitor mais crítico poderá colocar.
Definitivamente, e uma vez mais, independentemente da visão e percepção ideológica de cada um sobre o tema, este é um trabalho que merece ser lido. 


(1) Prefiro o uso de "disciplina" quando me refiro a Economia em vez de "ciência". Esta preferência acompanha a ideia expressa, e muito bem explicada, por Ha-Joon Chang em «Economics: The User's Guide»: "Economics is a political argument. It is not - and can never be - a science."

(2) Ver «Economics: The User's Guide» ou «23 Things They Don't Tell You About Capitalism» de Ha-Joon Chang (http://hajoonchang.net/). Ver ainda «The Determinants of Entrepreneurship at the Country Level: A Panel Data Approach» de Gonçalo Brás e Elias Soukiazis (disponível em http://www.uc.pt/feuc/gemf/working_papers/pdf/2015/gemf_2015-14)



Sinopse:

Empreendedorismo. Saída para a crise de emprego? Nos últimos anos, o empreendedorismo tem-se apresentado como a saída para a crise do emprego. Multiplicaram-se programas públicos de apoio e promoção do empreendedorismo. O tema entrou nos currículos de todos os níveis de ensino, havendo até workshops de «empreendedorismo para bebés». O «espírito do empreendedorismo» foi acolhido nas políticas sociais e desenvolveu-se uma rede de instituições, plataformas e encontros destinados a disseminá-lo. Neste livro, dá-se conta deste processo, dos mitos que lhe estão associados e dos resultados concretos alcançados. Sabia que a totalidade das medidas de apoio ao empreendedorismo, nas quais foram investidas centenas de milhões de euros, chegaram apenas a 1% dos desempregados oficialmente inscritos? Sabia que os países onde há taxas mais elevadas de autoemprego não são os países com economias mais inovadoras, mas sim onde há mais pobreza, como o Vietname ou o Bangladesh? Sabia que a herança, e não o mérito e o esforço individual, tem um peso cada vez maior na acumulação de riqueza na nossa sociedade, ao contrário do que sugere o discurso do empreendedorismo? De Steve Jobs a Oprah Winfrey, de Miguel Gonçalves ao Shark Tank, aqui encontrará as histórias de encantar do empreendedorismo. Mas também o outro lado desta narrativa. Não estarão a vender-nos uma falácia?

30/03/2016

Jornalismo circense

Aquilo que deveria ser a notícia sobre um acontecimento grave tornou-se numa amostra do crescente jornalismo circense em Portugal.
Mas contrariamente à coragem demonstrada por trapezistas ou domadores de feras, à destreza e agilidade de malabaristas, ou subtiliza de encantadoras de serpentes ou contorcionistas, aquilo que a comunicação social portuguesa (ou uma boa parte dela, a mais visível, pelo menos) mostrou sobre o grave acontecimento na Ameixoeira, foi a descoordenação motora e verbal dos palhaços, o ridículo e a ignorância dos bobos e a racionalidade de um equídeo ou dum paquiderme cheio de lantejoulas.

Aquilo que simplesmente podia ter sido resumido como:
«No bairro da Ameixoeira [o onde] ocorreu uma troca de tiros [o como] entre famílias, alegadamente rivais, que obrigou à intervenção policial e da qual resultaram cinco feridos, três dos quais polícias da PSP [o quê]. As causas da ocorrência ainda estão por apurar [o porquê].»
foi transformado num triste espectáculo (televisivo) de sucessivos e contínuos "directos", cheios de contradições, num exercício de especulação, suposições e adivinhação - ora se falavam em mortos, ora se falavam em feridos, ora se falava "num casal de civis" ou se diziam "mulheres feridas". Procuraram-se entrevistas junto de moradores que, quando não respondiam "não moro cá no bairro, só vim ver o que se passava, sou do Lumiar", conseguiram testemunhos que diziam uma coisa e logo o seu contrário. Filmaram-se pessoas que pediam para não ser mostradas ou que não queriam falar - a uma dessas pessoas, às quatro perguntas feitas por uma jornalista - sim, quatro insistências! - a resposta foi sempre a mesma: "não quero dizer nada".

A acompanhar o pouco ou nada que se via nas imagens em directo, ouviam-se entusiasmados jornalistas (?!) falar em rusgas em prédios que os surpreendiam porque "os polícias tocaram às campainhas" para entrarem nos prédios à procura de pessoas - havia  uma profissional que repetidamente se referia à presença duma "polícia musculada", o que, pela insistência (e quase inexistência nas imagens) me deixou na dúvida se haveriam agentes da UEP a rachar ou a partir cabeças ou se se tratava de algum fetiche.
A um dos moradores que explicou que havia aberto a porta da sua casa à polícia para que estes entrassem, a preocupação da jornalista (!?) era a de saber se a porta teria sido arrombada ou a entrada forçada. Uma inglória busca por sangue, suor e lágrimas - ou qualquer discurso de ódio - que terminou com esse morador a dizer-lhe "minha senhora, não me leve a mal, eu só posso dizer-lhe o que sei. Não lhe vou dizer o que não sei, está bem?".

Mas enquanto o circo e o espectáculo do ridículo já estava armado na Ameixoeira, outra tenda circense se levantava à porta do Hospital de Santa Maria. Ali, jornalistas (!?) mostravam o seu constante desagrado por terem sido deixados do lado de fora "enquanto as famílias podiam entrar mas ficavam no relvado, inclusivamente com crianças e bebés de colo". Entanto bradavam a sua desgraça por não poderem andar a passarinhar pelo hospital dentro a filmar tudo e todos, mesmo aqueles que não quisessem ser filmados ou que nada tinham a ver com a situação, as imagens mostravam as "várias famílias" ao longe e as crianças... por vezes a correr e a brincar (como só as crianças têm a capacidade de fazer, mesmo em momentos duros e de grande tensão!).
Entrava-se em directo com introduções do género "um familiar não quis dar a cara mas disse-nos que uma das vítimas foi atingida pela polícia" mas quando a esse familiar se perguntou "como sabe que foi a polícia?" a resposta foi "disseram-me umas pessoas lá daquele bairro".

Mas se poderíamos julgar que a característica circense é exclusiva do imediatismo das televisões, repare-se na imprensa escrita.
A fome desta comunicação social portuguesa por algo catastrófico e dramático é tanta que um jornal, sobre os cinco feridos (três dos quais já tiveram alta e dois permanecem internados mas em situação estável), faz uma chamada de capa que contraria toda e qualquer regra e código jornalístico: «Mulher morta e três polícias feridos. Tiroteio na Ameixoeira fez ainda mais dois feridos graves.»


Mas poderíamos dizer que tudo isto que, em minha opinião, contribui para colocar todos no mesmo saco da incompetência - os maus e os bons jornalistas - era o resultado de se entregarem microfones e câmaras a jovens jornalistas/estagiários mal preparados e pouco familiarizados com as regras jornalísticas e o código deontológico, mas, infelizmente, neste caso viram-se novos e "velhos".
Poderíamos ainda dizer que tudo isto se havia passado naquilo a que chamam "Correio da Manhã" - pasquim e canal de tv -, mas, infelizmente, neste caso foi também na SIC/SIC Notícias, TVI/TVI24 (e em menor escala na RTP1/RTP3), e o jornal em questão é o "jornal i".
Poderíamos, por fim, dizer que tudo isto se tratou dum circo (no seu sentido mais pejorativo) mediático isolado, mas, infelizmente, está a tornar-se prática comum.
E esta é a prática "Correio da Manhã" que, parece, está a transformar-se numa escola da comunicação social em Portugal.




01/02/2016

Livro: The Glass Cage

The Glass Cage: How our computers are changing us, de Nicholas Carr, não deve ser entendido como um livro "anti-tecnologia" ou um manifesto contra o uso, cada vez maior, das Tecnologias de Informação e Comunicação no nosso dia-a-dia. The Glass Cage traz à luz vários trabalhos que pretendem mostrar o efeito, nem sempre benéfico, das tecnologias.

É incontestável que as tecnologias estão cada vez mais enraizadas na vida de todos nós, alterando processos e relações sociais. Mas se é compreendido que estas acarretam alguns benefícios sociais e de bem-estar, não são suficiente e devidamente encarados os aspectos menos positivos da sua dependência, em especial os resultantes da automatização.

Na óptica de Nicholas Carr, e dos autores cujos trabalhos são citados, através da automatização de processos, sejam eles fabris, de serviços ou mesmo de apoio à tomada de decisão (selecção de informação decorrentes de algoritmos e/ou selecção ou construção de padrões), estão a criar-se condições para um distanciamento do Homem em relação ao Conhecimento. Chama-nos a atenção que a partir do momento em que o Homem assume o papel apenas de controlador da tecnologia - onde apenas tem que verificar ou controlar o bom funcionamento do processo automatizado - deixa de desenvolver ou possuir uma curiosidade sobre o próprio processo: o seu porquê e o como. Estes cenários empíricos, que indiciam uma espécie de retrocesso civilizacional na aquisição de competências, assentam na tónica de que esta aquisição, ao longo de vários séculos - ou mesmo milénios -, decorre da capacidade do ser humano aprender através da execução e superação de desafios, isto é, a tentativa e falha - learn by doing.

«Automation severs ends from means. It makes getting what we want easier, but it distances us from the work ok knowing. As we transform ourselves into creatures of the screen, we face the same existential question that the Shushwap confronted: Does our essence still lie in what we know, or are we now content to be defined by what we want?»

O livro de Nicholas Carr, e os estudos que nele são mencionados, não advogam que devamos rejeitar liminarmente a tecnologia e o seu desenvolvimento. Apenas nos alerta para que a adopção das tecnologias seja cautelosamente pensada e avaliada por todos os prismas. A sua implementação e apropriação deve ser analisada em termos de facilitação e bem-estar, mas não deve ser descurado o seu verdadeiro e mais profundo impacto social.


Sinopse:

«In The Glass Cage: How Our Computers Are Changing Us, his widely praised follow-up to the Pulitzer Prize-nominated The Shallows, bestselling author Nicholas Carr explores how our ever growing dependency on computers, apps, and robotics is reshaping our jobs, talents, and lives.
Digging behind the headlines about artificial intelligence and self-driving cars, digitized medicine and workplace robots, Carr explores the hidden costs of granting software dominion over our work and our leisure. Drawing on studies that underscore how tightly our sense of happiness and personal fulfillment is tied to performing skilled work in the real world, he reveals something we already suspect: shifting our attention to computer screens can leave us disengaged and discontented. Our lives may be easier inside the glass cage, but something essential is missing.

From doctors’ offices to the cockpits of passenger jets, from the frozen hunting grounds of Inuit tribes to the sterile landscapes of GPS maps, The Glass Cage explores the impact of automation from a deeply human perspective. Mixing history and philosophy, poetry and science, the book culminates in a moving meditation on how we can use technology to expand the human experience rather than narrow it.»
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